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- Médica e Escritora. Mãe e avó.Pessoa que gosta de fazer amigos. Adoro passear na praia.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
quinta-feira, 26 de maio de 2011
CORAÇÃO NAS NUVENS
Quando eu andava nas nuvens a te amar,
diziam que voando era que eu ia...
Sonhando sonhos loucos e, ao sonhar,
brilhava em mim a estrela da utopia.
Hoje, na relva fico a contemplar
no céu distante a imagem fugidia...
O Tempo esvaziou o teu lugar,
por mim passam as nuvens como um dia....
Não quer a vida que eu agora louve
fantasias de nuvens. Se te amando,
tanto, tanto – cheguei a viciar...
Já não faz falta hoje o amor, que houve.
Já não podem dizer “vivo voando”,
pois agora, sem ti, nem sei andar!
domingo, 22 de maio de 2011
Como ele mudou
Quando o conheci, apaixonei-me. À primeira vista. Tinha uma incrível personalidade. Era único para mim. Quando o encontrei era esnobe. E escolhia pessoas para se dar realmente a conhecer. Usava uma sigla, ao invés do nome. Para as pessoas comuns, só as suas iniciais. Era misterioso. Um código a decifrar.
Fazia-me sentir única, diferente, desde o início da universidade.
Ligava-se à (e ainda valoriza muito a) família. Conservador, mudanças no seu caráter eram raras de se observar e, quando ocorriam, alteravam toda a estrutura da pessoa com quem ele convivesse. Naquelas raras ocasiões, não se tinha como fugir do seu poder – que podia se tornar nocivo ou destruidor. Sem alma, era a como minha própria alma. Invasivo, assumia os poderes que quisesse, com seu permanente carisma...
O importante era eu percebê-lo inevitável, indestrutível, cheio de personalidade, coisa própria de sua estrutura, nativa, de berço! Eu descobri mesmo apaixonada, e com o desejo de conhecê-lo cada vez mais e melhor, que ele seria capaz de fazer pessoas sofrerem com as suas mudanças o resto da vida, toda a existência delas. E atingir os ascendentes delas e seus descendentes. Que poder incrível ele possuía!
Literalmente, escrupuloso no cumprimento do seu dever, podia ser bondoso – era aí que acabava um aparente demonismo. Ele predispunha-me a eu ser ação e reflexão, decisiva ou indecisa, enfim a reagir com maestria às grandes decepções, graças a sua companhia. Regia as minhas emoções. Dava-me certa impulsividade, algum grau de descontrole, mas me conservava uma fleuma britânica, influência da sua “personalidade”, com que me acostumei e me poupou de sofrer muito.
Depois, daqueles dias gloriosos de convivência na faculdade onde estudei medicina, ele começou a mudar. E nisto decorreu longo tempo... Eu também me transformei. Embora o guardasse dentro de mim, para o resto da vida, o mundo, as coisas em volta, as circunstâncias – enfim minhas vivências – foram minando um pouco a sua influência forte nas minhas emoções...
Ele não se alterou com o passar do tempo. Mas, ao se dar muito a conhecer, a escrupulosos e a inescrupulosos, estudaram-no, como se estudou um dia, o átomo, dissecaram-lhe no seu íntimo. Descodificaram-no. Perdeu o seu poder. Tão poderoso era, que às vezes me fazia pensar ele ser o próprio Deus. Inalterado, todo-poderoso, mal ou bem irremediável. Forçosamente presente em qualquer ser vivente, até mesmo nos animais... (Não. Não pensem numa metáfora. Ele era quimicamente formado de moléculas como eu e você!).
Popularizou-se (só não se banalizou de todo porque seria impossível alguém mudá-lo de pronto. Hoje até podem). Ele não tem uma índole confiável, mas continua sendo “aquele tipo bem-família”, arquétipo e arcano que me incendiou quando eu era jovem, exceto quando alguma força cósmica, química, física ou biológica fazia-o sofrer mutações. As pessoas o discutem, os sábios o analisam e o alteram até – ele não é o deus que o julgava ser a algumas décadas!...
Seu nome não é mais uma sigla. Americanou-se, na época que estudávamos ele tinha um prenome em português Não é mais um ilustre desconhecido para os leigos. Seu nome completo é Deoxyribonucleic Acid. Vulgarizado, coitado, com a antiga, velha conhecida sigla, DNA.
03/05/2011
A ÚLTIMA TAÇA
A noite aumenta a solidão. Perpassa
no vazio de quem já nada tem
a idéia de sorver a última taça
à juventude, que se foi também.
Passou o tempo.A mente hoje o repassa
saudosa, a reviver o antigo bem.
A lembrança arde e queima. E mais: embaça
o suspiro ao cristal que a mão detém.
Uvas são frágeis. Vinhos não o são.
Das almas tiram todo o fel da vida,
se a taça está vazia em nossa mão.
Geme o apego do limo à verde murta.
Tal qual se apega a casca da ferida
sofre e padece o Ser. A vida é curta.
João e Joaquina
JOÃO E JOAQUINA
Verônica Néry
Os pingos da marquise nos abrigados. Resquícios constantes da chuva, fraca e constante, caem na calçada e respingam nos corpos adormecidos total ou parcialmente. Três corpos distantes um do outro. Desconhecidos por gosto e vontade, na noite do Recife. Nem sempre são assim. Ás vezes se conhecem e se falam, trocam palavras –nunca cigarros ou outras drogas ou um gole de birita que são artigos de luxo – naquele mês de maio, onde o frio aparece na noite exterior da cidade.
João acende uma bituca de um Free qualquer... Boa esta de proibirem fumar em estabelecimentos fechados! Empregados apressados deixam seus restos mal fumados e João recolhe na beira das calçadas, nas proximidades das bocas-de-lobo, nos cantos de parede entre as colunas do fórum, dos hospitais, seja lá de onde for; são seus companheiros naquelas noites frias de sem-teto.
João é um homem de quase trinta, é alto, muito embora mirrado, mas tem muque (como qualquer sujeitinho que tem grana para freqüentar as academias por aí). A caixa dos peitos e os braços são frutos do empurrar da carroça de madeira que recolhe os materiais recicláveis dos sacos de lixo da cidade. Neles, ás vezes dá sorte de encontrar uns pacotes de pão pouco mofados. Com seu canivete recorta superficialmente o bolor e ingere – até acompanhado, o pão, com fatias embaladas de mortadelas ou presunto, jogadas fora pela validade, mas que o olfato do jovem homem percebe e julga ainda próprio para o consumo... É a refeição da hora. Mais tarde já estaria pior o estado de conservação.
Á noite, só os cigarros para esconder a fome, pois costuma ser o período longo do dia. Período da do pensar e infelizmente do recordar e reviver... Sem grandes problemas na consciência.
Não mais furtou, exceto quando menino e foi parar na extinta FEBEM. Achou tão ruim a experiência que, sem conselhos que não os da sua vivência, ele resolveu se livrar das más companhias. Não era coisa para “um príncipe” como ele. Os olhos azuis no rosto pálido cujas maçãs proeminentes brilhavam na noite a esboçar inexplicável paz. Se fosse de dia, poder-se-ia ver o corado nos malares, no nariz afilado, na testa alta, rodeado de cachos ruivos dourados...
Menino do alto sertão pernambucano, filho de uma "rapariga" (que também se julgava princesa) com um tropeiro qualquer de passagem por aquelas bandas. João, recém nascido foi parar numa lata de lixo, jogado que fora pela adolescente mãe... Isto depois que ela fugira com umas amigas para a cidade grande. Disseram-lhe o local exato onde ele fora achado (isso ele já tinha por volta de oito anos). Um velho do bairro lhe contou.
Uma vizinha de debaixo do viaduto o apanhou junto de uma caçamba de recolher metralhas. Fora explorado até aos seis anos, como chantagem aos motoristas e aos pedestres ali, na praça, pertinho do tal viaduto, onde moraram a mulher e o velho. Com pena do menino, outros moradores de rua, dividiam consigo as migalhas e assim foi João crescendo até que não dava mais lucro.
Aí... Virou lavador de carros nos sinais. Foi se afastando de casa aos poucos, aproveitando a liberdade condicional que a mãe adotiva lhe dava, a fim de se livrar das lamboradas nas pernas, dos pescoções e das equimoses nos lombos, quando a féria do dia era considerada pequena. Então, o menino pré-adolescente, através de suas novas amizades, descobriu que podia ser aceito num grupo humano sem ter de pagar com seu trabalho a convivência. Dali adveio o contato com drogas os furtos de aparelhos celulares nos sinais de trânsito, furtos de descuidados transeuntes, nada mais... O grupo lhe valeu um estágio na instituição correcional de menores...
O sonho de ser adotado por uma família menos pobre, de estudar, de crescer num lar – sonho que o acompanhara toda a infância morrera quando fora parar ali. Quem ia querer um menino já grande. Era bonito e com uma dentição completa um lindo sorriso, um jeito de tímido e de bom comportamento... Mas com passagem pela FEBEM... Parecia-lhe que ficou impresso na testa como boi marcado!
Resolveu ser catador de lixo, morador pobre de rua que era. Saiu das calçadas. Arrumou um quarto para dormir...
O tempo ia passando. Às vezes tinha vontade de procurar o velho. Por volta dos treze anos, já com os vícios púberes do sexo, achou João de pensar, de maneira obstinada, em conhecer a mãe. Aquela que o abandonara. Não que achasse que era a dona de um palácio, uma ex- princesa, agora rainha e bem de vida, podia ser uma mendiga arrependida do que fizera... Lembrou-se de que o idoso que conhecia bem a mulher, que o recolhera e que gravara as feições da desalmada, afirmara que a linda mulher fora por ela vista, mais tarde, “rodando bolsinha” num dos pontos de prostituição das ruas do bairro onde vivera, em Boa Viagem.
João, embora tivesse sido expulso pelo pároco das calçadas da igreja, não tinha mágoas de Deus – ficara um pouco chateado com o seu representante na Terra, afinal o que tinha de mal em ficarem, em ele e outros meninos, apelando para a caridade na porta daquele templo, àqueles que se diziam “fiéis” (e que não eram nem tanto assim em matéria de caridade)... Então, preferiria o padre que eles estivessem bem longe de seus olhos (paternais) cometendo descuidos ou fumando ervas perigosas!
Outro desassossego com o Pai Eterno veio quando João passou a receber as sopas dos espíritas, pessoas boas que a davam de graça... E ainda teve uma boa senhora do grupo que lhe explicou o “motivo” de João sofrer tanto nesta ”vida Severina”, na qual, ele tanto se importava de ser do Bem... Seria seu sangue nobre de outros idos!
Ele reviveu a aspiração de ser um príncipe desconhecido aos olhos do mundo. Tivesse ele limpo, barbeado, perfumado e bem vestido e calçado seria um Tom Cruise, a poder ser mais atraente do que ele, o 'príncipe das ruas' – assim apelidado quando fora estuprado aos nove anos pelos companheiros de reclusão, num passado dolorosamente inesquecível!... Pensando em outros meninos de rua, como ele havia sido, imaginava de como seria o processo de suas evoluções espirituais para remir os carmas!... Da aprendizagem na universidade das instituições de menores delinqüentes e nos presídios de meliantes e psicopatas, onde o pobre se gradua, tira mestrado e doutorado no crime!... Particularmente, no seu caso, de voltar outra vez ao mundo como o Príncipe que era e sentia ser, a que tanto se inclinara a ter, a partir daquele ponto de partida... Da vida na rua, da obscuridade, do desprezo e de maus tratos...
A desilusão maior só veio surgir, depois de tamanha consolação, quando se descobriu, ele próprio, ser um mero instrumento da salvação de outros, através da caridade... É... Nada era mesmo gratuito para ele... Um príncipe!... Que ninguém faz nada pelo outro sem ser para se exibir ou sem esperar nada em troca... Fora da caridade não havia salvação.
João, o catador de lixo, como todo miserável infeliz nesta vida, buscava mais a Deus, do que um outro comum mortal. Não, como se não soubesse ele, intimamente ser de uma nobre classe, de uma casta augusta. Não seria como ele era – ele e alguns poucos da base da pirâmide social –, um grande buscador de Deus, das razões de Deus, da bondade e justiça Dele, das riquezas de um Reino, que não era deste mundo, mas se lhe prometia Eterno!
Embora com raiva de todas as religiões, o homem, buscava uma “casa de Deus” que lhe sossegasse a alma, que lhe desse a razão para ser bom. Procurava uma liberdade, porto de chegada e abrigo benfazejo nas religiões...
Até daquela dos “crentes”, que apelavavam para boa fé do povo nas ruas diuturnamente, com alto-falantes conclamando-o a irem a uma igreja dita evangélica... Aí, João, atendeu ao chamado do homem do livro preto e foi conhecer o templo e ouvir a palavra...
E foram tanto nomes de demônios que ele aprendeu! E assistiu assustado sobre tantos modos de explorar o próximo para “determinar” (mandar em Deus – a quem ele sempre respeitou a vontade!), dando dinheiro para os obreiros da tal seita... Outra desilusão! E esta a pior!
João vira muita TV. Ouviu falar dos chamados terroristas islâmicos e ficou a pensar que podia virar um Herói como um Homem-Bomba, e mesmo matando consigo muitos inocentes ser reconhecido como Pessoa por Alá e pelos homens. Cansara de ser invisível... Mas não teria coragem, pensou.
Aí, veio a Semana Santa e João tinha acabado de completar trinta anos. Trinta anos onde, neste ínterim, conhecera a mãe. O velho a ele, lhe apontara numa esquina... Mulher, de quem quase se tornara freguês até desconfiar-lhe da beleza e delicadeza (próprias de uma rainha pobre por circunstâncias, segundo ele). Ela confiara-lhe seu segredo.
A época e o lugar onde fora encontrado batiam com os revelados pela mulher em pranto, ao saber da história do rapaz e os dois se abraçaram e ficaram amigos... Não se explica como foi fácil para João perdoar-lhe. A carência muito grande dos dois, em matéria de afetividade os impeliu a esquecer o passado...
Como se fossem de outras castas mesmo, mendigo e prostituta começaram a sonhar mais do que a planejar, pois não tinham ponto de partida... Só propósitos difíceis de cumprir... Ele para nunca se drogar nem roubar, com o incentivo da mãe; ela, para acompanhá-lo na coleta do lixo, dormir com ele na mesma marquise, de onde pingavam as gotas da lavagem celestial sobre a nova vida que levariam os dois, inseparavelmente (embora, sabe Deus lá como o fariam!)... Ser companheiros e ela deixar 'a vida', viverem sobre o mesmo teto, como mãe e filho. Decidiram e assim o fizeram durante quatro dias.
Então, ali pertinho de onde se abrigavam e trabalhavam no Marco Zero do Recife, encenariam o Espetáculo da Paixão. (Eles foram juntos, apenas perto um do outro, mas vizinhos como espectadores do show naquela avalanche humana, onde pobres e ricos, adultos, crianças, jovens e velhos de várias classes sociais distintas partilhavam mais uma benesse pública de um grupo de atores devotados a seu ofício). Sem ônus, de graça, como as coisas divinas deviam ser!
Então juntos e individualizados da multidão, sob a chuva torrencial que espocava do céu escuro do Recife, cuja cortina de águas feericamente iluminada pelos holofotes de coloridas nuances cambiantes lavava-lhes as almas sedentas e ressequidas. Eles se sentiam como intimamente fossem Jesus e Maria... João pensava, “Jesus nem precisava das religiões para consolar a todos os que sofriam e queriam ser do Bem...” Como ele mesmo, não era Jesus um príncipe o Filho de um Rei, alguém que sendo pobre não foi mau, que foi injustiçado, como João.
Joaquina, mãe de João, pensava, apertando o braço do homem, ”e Maria... Quanto não sofreu casando grávida... Quem lhe julgaria se ela tivesse posto o filho tido como bastardo no lixão de Nazaré...!”
O céu lavava com suas lágrimas dois passados. Rasgar-se-ia no último suspiro do Ator Principal, o Véu do Templo, libertando o povo judeu e... Por extensão, a toda a humanidade da necessidade de sacerdotes para intercederem por si (pouco tempo antes o crucificado diria: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”).
Todos seus sofrimentos compartilhados e vivenciados pelo augusto carpinteiro que sofria e sofria e sofria, sem esquecer o Amor e o Perdão lhes deu ânimo... Fez João olhar para a mãe e a ex- prostituta teve o mesmo gesto. Sorriram para o outro, olhos nos olhos por um instante. Deram-se as mãos.
Não se sabia se era só a chuva que lhes rolava águas nas faces... Um pensamento único, para depois ser compartilhado, cortou, em suas mentes, e como um relâmpago, o Marco Zero.
... Quem sabe aprenderem juntos o ofício de artesãos e a reciclarem eles mesmo o lixo, criando objetos de uso e do lar para venderem, perto da pracinha de Boa Viagem...
O clímax para ambos foi quando Plínio Pacheco da cruz dizia:
FILHO, EIS AÍ A TUA MÃE! MÃE, EIS AÍ TEU FILHO!
Verônica Néry 27/04/2011
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