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Médica e Escritora. Mãe e avó.Pessoa que gosta de fazer amigos. Adoro passear na praia.

domingo, 22 de maio de 2011

Como ele mudou

          Quando o conheci, apaixonei-me. À primeira vista. Tinha uma incrível personalidade. Era único para mim. Quando o encontrei era esnobe. E escolhia pessoas para se dar realmente a conhecer. Usava uma sigla, ao invés do nome. Para as pessoas comuns, só as suas iniciais. Era misterioso. Um código a decifrar.
            Fazia-me sentir única, diferente, desde o início da universidade.
            Ligava-se à (e ainda valoriza muito a) família. Conservador, mudanças no seu caráter eram raras de se observar e, quando ocorriam, alteravam toda a estrutura da pessoa com quem ele  convivesse. Naquelas raras ocasiões, não se tinha como fugir do seu poder – que podia se tornar nocivo ou destruidor. Sem alma, era a como minha própria alma. Invasivo, assumia os poderes que quisesse, com seu permanente carisma...
O importante era eu percebê-lo inevitável, indestrutível, cheio de personalidade, coisa própria de sua estrutura, nativa, de berço! Eu descobri mesmo apaixonada, e com o desejo de conhecê-lo cada vez mais e melhor, que ele seria capaz de fazer pessoas sofrerem com as suas mudanças o resto da vida, toda a existência delas. E atingir os ascendentes delas e seus descendentes. Que poder incrível ele possuía!
Literalmente, escrupuloso no cumprimento do seu dever, podia ser bondoso – era aí que acabava um aparente demonismo. Ele predispunha-me a eu ser ação e reflexão, decisiva ou indecisa, enfim a reagir com maestria às grandes decepções, graças a sua companhia. Regia as minhas emoções. Dava-me certa impulsividade, algum grau de descontrole, mas me conservava uma fleuma britânica, influência da sua “personalidade”, com que me acostumei e me poupou de sofrer muito.

Depois, daqueles dias gloriosos de convivência na faculdade onde estudei medicina, ele começou a mudar. E nisto decorreu longo tempo...  Eu também me transformei. Embora o guardasse dentro de mim, para o resto da vida, o mundo, as coisas em volta, as circunstâncias – enfim minhas vivências – foram minando um pouco a sua influência forte nas minhas emoções...
 Ele não se alterou com o passar do tempo. Mas, ao se dar muito a conhecer, a escrupulosos e a inescrupulosos, estudaram-no, como se estudou um dia, o átomo, dissecaram-lhe no seu íntimo. Descodificaram-no. Perdeu o seu poder. Tão poderoso era, que às vezes me fazia pensar ele ser o próprio Deus. Inalterado, todo-poderoso, mal ou bem irremediável. Forçosamente presente em qualquer ser vivente, até mesmo nos animais... (Não. Não pensem numa metáfora. Ele era quimicamente formado de moléculas como eu e você!).
Popularizou-se (só não se banalizou de todo porque seria impossível alguém mudá-lo de pronto. Hoje até podem). Ele não tem uma índole confiável, mas continua sendo “aquele tipo bem-família”, arquétipo e arcano que me incendiou quando eu era jovem, exceto quando alguma força cósmica, química, física ou biológica  fazia-o sofrer mutações. As pessoas o discutem, os sábios o analisam e o alteram até – ele não é o deus que o julgava ser a algumas décadas!...
Seu nome não é mais uma sigla. Americanou-se, na época que estudávamos  ele tinha um prenome em português Não é mais um ilustre desconhecido para os leigos. Seu nome completo é Deoxyribonucleic Acid. Vulgarizado, coitado, com a antiga, velha conhecida sigla, DNA.

 03/05/2011

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